Liderança

Parabéns pela promoção: você acaba de entrar pro grupo mais desengajado da empresa

A Gallup mediu o engajamento de milhões de trabalhadores no mundo e encontrou algo desconfortável: o gestor — justamente quem deveria puxar o time pra cima — virou o elo que mais desengaja. De 31% pra 22% em três anos. Enquanto isso, nas organizações de melhores práticas, 79% dos gestores estão engajados. A diferença não é sorte. É método.

Adriano Abreu10 de julho de 2026

A festa que ninguém quer mais

Durante décadas, virar gestor foi o troféu da carreira corporativa. Sala melhor, crachá diferente, aquele orgulho na reunião de família. A Gallup acaba de publicar o State of the Global Workplace 2026 — o maior estudo contínuo sobre experiência do trabalhador no mundo — e o retrato é de festa esvaziada: o engajamento global caiu para 20% em 2025, o menor nível desde 2020, custando à economia mundial cerca de US$ 10 trilhões em produtividade perdida — o equivalente a 9% do PIB global.

Mas o dado que deveria tirar o sono de qualquer diretoria não é esse. É este: quem mais puxou a queda foram os gestores.

O fim do "prêmio de engajamento"

Historicamente, gestores eram mais engajados que suas equipes — a Gallup chamava isso de engagement premium. Fazia sentido: mais autonomia, mais status, mais senso de propósito. Esse prêmio acabou.

Os números do relatório: o engajamento dos gestores caiu de 31% em 2022 para 22% em 2025 — nove pontos em três anos, com a maior queda anual registrada entre 2024 e 2025 (de 27% para 22%). No mesmo período, os não-gestores oscilaram de 20% para 19%. Ou seja: o gestor hoje está praticamente tão desengajado quanto o time que lidera. O elo que deveria transmitir energia virou o elo que transmite cansaço.

E tem um agravante emocional que quase ninguém mede. O mesmo relatório mostra que, comparados aos contribuidores individuais, líderes reportam mais estresse (+7 pontos), mais raiva (+12), mais tristeza (+11) e mais solidão (+10) no dia anterior à pesquisa. A promoção que era troféu virou fatura.

Por que isso está acontecendo agora?

O relatório aponta pistas. Na Ásia Meridional — puxada pela Índia — o engajamento dos gestores despencou oito pontos num único ano, a maior queda regional, ao mesmo tempo em que a proporção de gestores encolheu. Tradução: empresas estão cortando camadas de gestão (o famoso flattening), e quem sobra herda times maiores. Um estudo da própria Gallup com gestores americanos confirma o mecanismo: quanto maior o número de subordinados diretos, menor o engajamento do gestor — efeito que talento e treinamento conseguem compensar, mas que a maioria das empresas ignora.

Junte os ingredientes: menos gestores, times maiores, pressão por adoção de IA, e nenhum investimento novo em preparar essas pessoas. O resultado está no gráfico.

E o Brasil nessa história?

O recorte brasileiro do mesmo relatório parece boa notícia — até você olhar duas vezes. O Brasil tem 32% de trabalhadores engajados, acima da média da América Latina (30%) e bem acima da média global (20%). Só que a curva virou: estávamos em 34% em 2024 e caímos dois pontos. E tem o dado que ninguém põe no post de LinkedIn: 45% dos trabalhadores brasileiros relatam ter sentido muito estresse no dia anterior — acima da média global de 40% e da regional de 43%.

Traduzindo: o brasileiro veste a camisa mais que o resto do mundo, mas está pagando essa conta com a própria saúde. Engajamento alto com estresse alto não é cultura forte — é combustão. E combustão, sem manutenção, tem prazo de validade. A queda de dois pontos pode ser o primeiro aviso.

💡 Um mapeamento rápido para sua próxima reunião de diretoria. Pergunte: quantos subordinados diretos tem cada gestor da casa hoje versus há dois anos? E o que foi feito de concreto pra prepará-los pra essa carga extra? Se a resposta for silêncio, o desengajamento não é mistério — é consequência. Mapear o perfil comportamental de quem lidera é o primeiro passo; o Mosaico de Talentos do Mapeyo mostra, com dados e não achismo, quem tem Execução, Influência e Relacionamento pra sustentar times maiores — e quem vai quebrar tentando.

O detalhe que muda a conversa sobre IA

Aqui o relatório fica realmente interessante pra quem decide orçamento. A Gallup investigou o que faz a adoção de IA funcionar de verdade dentro das empresas, e os dois maiores preditores de uso frequente são: integração da IA com os sistemas existentes e — atenção — o gestor direto apoiar ativamente o uso pela equipe.

Os números: quando o gestor apoia ativamente, 79% dos funcionários usam IA com frequência. Quando não apoia, 46%. E menos de um terço dos trabalhadores americanos em empresas que já implementam IA concordam fortemente que seu gestor dá esse apoio. Na Alemanha, apenas 21%.

Leia de novo, agora juntando as duas pontas: a variável que mais destrava o retorno dos milhões investidos em IA é justamente a camada mais desengajada da empresa. Sua estratégia de IA está pendurada em quem está com raiva, triste e sozinho. Boa sorte com o ROI.

Desengajamento de gestor não é fatalidade

A parte que impede esse artigo de ser só lamento: a Gallup mediu as organizações de melhores práticas e encontrou 79% de gestores engajados — quase quatro vezes a média global de 22%. Mesmo mundo, mesma economia, mesma IA batendo na porta. A diferença não é sorte nem verba infinita. É tratar gestão como habilidade que se seleciona, se desenvolve e se mede — e não como recompensa por tempo de casa ou por ser o melhor técnico do time.

É aqui que a maioria das empresas brasileiras tropeça: promove o melhor vendedor a gerente de vendas, o melhor dev a tech lead, e descobre dois anos depois que perdeu um ótimo executor e ganhou um gestor infeliz. O relatório da Gallup dá o custo agregado dessa prática: US$ 10 trilhões.

🧭 Pra quem decide promoções. Antes da próxima, vale responder com dados três perguntas: essa pessoa tem perfil comportamental pra liderar ou só desempenho técnico pra entregar? O time que ela vai herdar é do tamanho que ela aguenta? E ela vai ser a ponte ou o gargalo da adoção de IA? O Mapeyo pra empresas estrutura exatamente essa conversa — assessments comportamentais, comparativos por perfil de vaga e relatórios executivos que transformam promoção de aposta em decisão.

Quem cuida de quem cuida?

O gestor não virou vilão. Virou vítima de um desenho organizacional que empilhou responsabilidade, encolheu suporte e ainda cobrou dele o entusiasmo de embaixador de IA. Os dados da Gallup só deram número ao que qualquer um que conversa com gerentes de verdade já sentia no corredor.

Mas os mesmos dados mostram o caminho: onde a gestão é tratada como competência — selecionada com critério, desenvolvida com método, medida com honestidade — o engajamento quadruplica. Não é loteria. É decisão.

Então decida. Olhe pros seus gestores essa semana e responda: quem está cuidando de quem cuida? O dia em que sua empresa tiver uma boa resposta pra essa pergunta, ela entra pro grupo dos 79%. Até lá, está torcendo.


Fonte dos dados: Gallup, State of the Global Workplace 2026 (dados de 2025), disponível em gallup.com.

Na Mapeyo, acreditamos que decisão de gente se toma com dado, não com achismo. O Mosaico de Talentos reúne 12 instrumentos comportamentais numa leitura executiva pra decidir quem contratar, quem promover e quem preparar pra liderar. Conheça em mapeyo.io.